Vale a pena desenvolver eletrônica no Brasil?

Todo aquele que trabalha com desenvolvimento de eletrônica no Brasil já deve ter sido questionado se não é mais fácil trazer a solução pronta do exterior.  O fato é que a eletrônica virou uma espécie de “commoditie” e certamente você encontrará solução pronta para praticamente tudo que pensar em desenvolver. Como muitas vezes estas soluções já são produzidas em larga escala, principalmente circuitos mais simples, muitas vezes trazer a solução pronta acaba sendo muito competitivo, se comparado com desenvolvimento local. Além disto, desenvolver localmente sempre traz a necessidade de desenvolvimento tecnológico, o que muitas vezes demanda uma atividade contínua e demorada. O que queremos dizer é que um produto de sucesso deve estar em constante aprimoramento se quiser ter vida longa.  Quando se desenvolve uma nova solução, dificilmente a primeira versão é perfeita e a melhor que podemos implementar. Ao longo da vida do produto normalmente detectamos características que podem ser melhoradas, incrementando o desempenho ou reduzindo custos.

No Brasil encontramos muitas pessoas que querem iniciar um novo empreendimento na área eletrônica. A questão é: vale a pena?

Em nossa opinião, para responder a esta pergunta temos que analisar alguns pontos:

1) O produto vai vender? Como em qualquer ramo altamente competitivo, o sucesso depende diretamente da nossa capacidade de destaque frente à concorrência. No passado era comum desenvolver pequenos circuitos, principalmente para entretenimento ( luzes rítmicas, pequenos amplificadores, circuitos para modelismo etc) e conseguir vender um número até interessante de unidades. Mas como disse acima, a eletrônica virou uma espécie de “commoditie”, e hoje, ao pensar em um produto, basta uma consulta rápida na internet para descobrir que muitos já vendem algo semelhante e com preço muito competitivo. Quanto mais simples o produto que você idealizar, mais dura é esta realidade. E tem a situação contrária, ou seja, você pensa em um produto mais sofisticado, procura na internet e vê que não tem muita concorrência, mas tem a grande dúvida se vai vender. O que fazer? Primeiro temos que ter certeza que nosso novo produto tem demanda. Ou seja, não adianta pensar em algo que ninguém quer. Muitas vezes a ideia é perfeita para nós mas o mercado, que é quem compra, pensa diferente. Então o primeiro passo é verificar se o que queremos desenvolver tem demanda. Quanto à concorrência, quanto mais simples o produto, mais acirrada é a concorrência (incluindo ai a que vem de fora).

2) Temos capacidade para desenvolver o produto? Esta é outra questão importante. Desenvolver não é apenas conseguir um protótipo que funcione mais ou menos. Nós temos que dominar o produto. Pegar aquele esquema pronto na internet e montar um protótipo e a partir dele iniciar a produção é bem arriscado. Você tem de pensar que seu novo produto será utilizado por pessoas e ambientes não previstos por você, o que pode significar um alto nível de falhas e reclamações. Se queremos colocar algo no mercado, temos que dominar todas as etapas deste o desenvolvimento até a fabricação. Já presenciei situações em que empresas até bem estruturadas vendiam soluções aqui no Brasil importadas como “black box”. Ai bastava mudar alguma coisa no mercado local e o produto parava de funcionar. Na área de acessórios automotivos isto é bem comum em função da sofisticação crescente dos automóveis. Então, ao selecionar seu novo produto, tenha certeza que tem domínio completo sobre ele.

3) Porque desenvolver no Brasil? A primeira resposta óbvia a esta questão vem do item 2 acima. Se desenvolvermos localmente teremos maior controle sobre o produto. Mas se optarmos por desenvolver temos que fazer o melhor produto possível, em função do item 1 citado acima. Nós que trabalhamos com eletrônica (ou qualquer outra área), seja como hobby ou numa grande empresa temos que ter em mente que se sempre escolhermos o caminha mais fácil e tentar encontrar o produto pronto, estaremos exportando vagas de trabalho. Esta questão já é visível se compararmos com os países economicamente e tecnologicamente semelhantes a nós. A China, por exemplo, está se especializando no desenvolvimento de todo tipo de produto, indo de pequenos circuitos a carros. Depois de um grande esforço feito por anos, hoje eles colhem o fruto deste trabalho e têm uma das mais fortes indústrias do planeta. O Brasil por sua vez está mergulhando numa crise sem precedentes na área industrial e boa parte dos problemas é a falta de desenvolvimento tecnológico própria. O desenvolvimento eletrônico no Brasil está desaparecendo, uma vez que estamos quase sempre optando por importar soluções prontas.

 

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